Barbeiro cortando o cabelo com tesoura e pente

Quanto cobrar pelo corte de cabelo na barbearia e no salão: a conta da hora de cadeira

Publicado em · 12 min de leitura · Guia completo

Segunda de manhã. Você abre o Instagram da barbearia da esquina: corte a R$ 40. O seu também é R$ 40. A agenda encheu, a comissão saiu certinha, o aluguel foi pago. E no fim do mês, olhando o extrato, sobrou quase nada. A cadeira trabalhou o mês inteiro e você não sabe para onde foi o dinheiro.

Para saber quanto cobrar pelo corte de cabelo, não comece pelo preço do vizinho. Comece pelo custo de um atendimento: a comissão, o produto e o tempo de cadeira, que é o seu custo fixo do mês dividido pelas horas que você atende. O preço certo é esse custo mais a sobra que você quer. Neste guia está a conta inteira, feita à mão, para a barbearia e para o salão, com um modelo para você preencher com os seus números.

Por que copiar o preço do vizinho não funciona

Olhar o preço da concorrência não é errado. Errado é parar nele. O vizinho tem outro aluguel, outra comissão, outro tempo de corte e outra agenda. Ele pode estar cobrando R$ 40 e perdendo dinheiro sem saber, e aí você copia o prejuízo junto com o preço.

O preço da região mostra uma coisa só: quanto o cliente dali aceita pagar. Ele não mostra se sobra alguma coisa para você. Por isso, use as duas informações juntas:

  • A sua conta diz o mínimo. Abaixo dele, cada atendimento tira dinheiro do seu bolso.
  • A região diz o teto. Acima dele, você precisa entregar algo a mais para o cliente aceitar: atendimento no horário, ambiente, um barbeiro que todo mundo quer.

Se o mínimo da sua conta ficar acima do teto da região, o problema não é o preço: é o custo ou a agenda vazia. A conta mostra qual dos dois.

O que é a hora de cadeira

Hora de cadeira é quanto custa manter uma cadeira aberta por uma hora, só com os custos fixos. É o número que transforma o aluguel e a conta de luz em algo que você consegue colocar no preço de cada serviço.

Entram no custo fixo tudo o que você paga no mês, com ou sem cliente:

  • aluguel, condomínio e IPTU;
  • luz, água, internet e telefone;
  • contador, sistemas e a mensalidade da maquininha;
  • limpeza, café, toalhas e material de higiene;
  • manutenção e troca de equipamentos (máquina, secador, cadeira), dividida por mês;
  • o seu pró-labore, se você só administra e não atende.

Ficam de fora a comissão e o produto, porque eles só existem quando tem atendimento. Esses entram na conta de cada serviço, logo abaixo.

As horas de cadeira são os dias abertos × as horas por dia × o número de cadeiras. Um exemplo com números redondos, de uma barbearia com uma cadeira:

Hora de cadeira de uma barbearia com uma cadeira
Custo fixo do mêsR$ 4.000
Horas de cadeira no mês (8 h por dia, 20 dias)160 h
Hora de cadeira (R$ 4.000 ÷ 160 h)R$ 25

Com mais cadeiras, some as horas de todas: três cadeiras abertas 160 horas cada dão 480 horas, e o custo fixo é o do negócio inteiro. Um equipamento que dura um ano entra dividido por 12. Se você não sabe o custo fixo de cabeça, pegue os extratos dos últimos três meses e tire a média.

Quanto cobrar pelo corte de cabelo: a conta de um corte de 40 minutos

Agora a conta de um atendimento. Um corte de 40 minutos, cobrado a R$ 40, numa barbearia que paga 40% de comissão. Cada corte gasta uns R$ 3 de produto (shampoo, pomada, lâmina, papel de pescoço). E ocupa 40 minutos de cadeira, que são dois terços de uma hora de R$ 25.

Corte de 40 minutos a R$ 40
Preço do corteR$ 40,00
Sai: comissão do barbeiro (40%)R$ 16,00
Sai: produtoR$ 3,00
Sai: tempo de cadeira (40 min de uma hora de R$ 25)R$ 16,67
Sobra para o negócioR$ 4,33

R$ 4,33 por corte. É isso que sobra depois de pagar o barbeiro, o produto e a parte do aluguel e das contas que aquele corte usou. Com a cadeira cheia o mês inteiro, são 240 cortes de 40 minutos. Eles deixam 240 × (R$ 40 − R$ 16 − R$ 3) = R$ 5.040, e tirando os R$ 4.000 de custo fixo sobram R$ 1.040 no mês.

Parece pouco porque é pouco. E essa conta ainda é a otimista: ela supõe que a cadeira ficou ocupada todas as 160 horas.

A cadeira vazia também custa

O aluguel não cai na terça à tarde só porque a agenda está vazia. O custo fixo é o mesmo com a cadeira cheia ou parada. Então a hora de cadeira certa não é o custo fixo dividido pelas horas que você abre, e sim pelas horas que você vende.

Na mesma barbearia, se a agenda fica ocupada em 3 de cada 4 horas (75%), são 120 horas vendidas no mês:

O mesmo corte com a agenda 75% ocupada
Horas vendidas no mês (75% de 160 h)120 h
Hora de cadeira (R$ 4.000 ÷ 120 h)R$ 33,33
Tempo de cadeira do corte (40 min)R$ 22,22
Sobra do corte de R$ 40 (R$ 40 − R$ 16 − R$ 3 − R$ 22,22)R$ 1,22 de prejuízo

O mesmo corte, pelo mesmo preço, passou a dar prejuízo. No mês, são 180 cortes: 180 × R$ 21 = R$ 3.780, que não pagam os R$ 4.000 de custo fixo. Faltam R$ 220.

A hora de cadeira é o custo fixo dividido pelas horas que você vende, não pelas horas que você abre.

Para saber a sua ocupação, anote durante duas semanas quantas horas a agenda ficou marcada e compare com as horas abertas. Com esse número, você tem duas saídas: subir o preço ou encher as horas vazias. Normalmente, as duas juntas.

Como achar o preço que deixa a sobra que você quer

Até aqui, a conta respondeu "quanto sobra com o preço que eu cobro". Agora a pergunta certa: "quanto preciso cobrar para sobrar o que eu quero".

Comece decidindo quanto você quer que sobre em cada corte. Digamos R$ 10. Depois separe os custos em dois grupos:

  • Os que não mudam com o preço: produto (R$ 3) e tempo de cadeira (R$ 16,67).
  • Os que são um percentual do preço: a comissão de 40%. Se você cobrar R$ 50, ela é R$ 20; se cobrar R$ 60, é R$ 24.

Como 40% de qualquer preço vai para o barbeiro, só 60% fica com o negócio. Esses 60% precisam pagar o produto, o tempo de cadeira e a sobra. Daí sai a fórmula:

Preço mínimo = (produto + tempo de cadeira + sobra) ÷ (1 − comissão)

Preço do corte para sobrarem R$ 10
ProdutoR$ 3,00
Tempo de cadeira (40 min)R$ 16,67
Sobra que você querR$ 10,00
Soma (R$ 3 + R$ 16,67 + R$ 10)R$ 29,67
Parte do preço que fica com o negócio (100% − 40%)60%
Preço mínimo (R$ 29,67 ÷ 0,60)R$ 49,45

Confira: 40% de R$ 49,45 dá R$ 19,78 de comissão. R$ 49,45 − R$ 19,78 − R$ 3 − R$ 16,67 = R$ 10,00. Arredondando para cima, o corte vai para R$ 50.

Veja como a sobra muda a cada R$ 5 no preço:

Preço do corte Comissão (40%) Produto Tempo de cadeira Sobra
R$ 40 R$ 16 R$ 3 R$ 16,67 R$ 4,33
R$ 45 R$ 18 R$ 3 R$ 16,67 R$ 7,33
R$ 50 R$ 20 R$ 3 R$ 16,67 R$ 10,33
R$ 55 R$ 22 R$ 3 R$ 16,67 R$ 13,33

Cada R$ 5 a mais no preço vira R$ 3 a mais de sobra, porque R$ 2 vão para a comissão. E se a sua agenda está 75% ocupada, como no exemplo anterior, a mesma conta com o tempo de cadeira de R$ 22,22 dá (R$ 3 + R$ 22,22 + R$ 10) ÷ 0,60 = R$ 58,70.

E a taxa do cartão? Ela também é um percentual do preço, então entra junto com a comissão. Com 40% de comissão e, por exemplo, 3% de taxa, fica 57% com o negócio: R$ 29,67 ÷ 0,57 = R$ 52,05. Se a maioria dos seus clientes paga no Pix ou em dinheiro, use uma taxa média.

Como precificar serviços de salão: o procedimento longo

No salão, a conta é a mesma, mas o tempo pesa mais. Um procedimento de três horas usa três horas de cadeira, e o produto costuma ser caro. É onde o preço "de cabeça" mais engana.

Um exemplo com números redondos: um salão com custo fixo de R$ 9.600 e duas cadeiras de 160 horas cada (320 horas) tem hora de cadeira de R$ 9.600 ÷ 320 = R$ 30. Uma progressiva de 3 horas, cobrada a R$ 250, gasta R$ 60 de produto e paga 40% de comissão:

Progressiva de 3 horas a R$ 250
Preço da progressivaR$ 250
Sai: comissão (40%)R$ 100
Sai: produtoR$ 60
Sai: tempo de cadeira (3 h × R$ 30)R$ 90
Sobra para o salãoR$ 0

Três horas de cadeira para não sobrar nada. A profissional ganhou, o fornecedor ganhou, o aluguel foi pago, e o salão trabalhou de graça. Para sobrarem R$ 30, a fórmula é a mesma do corte:

Preço da progressiva para sobrarem R$ 30
ProdutoR$ 60
Tempo de cadeira (3 h)R$ 90
Sobra que você querR$ 30
SomaR$ 180
Parte do preço que fica com o salão (100% − 40%)60%
Preço mínimo (R$ 180 ÷ 0,60)R$ 300

Confira: 40% de R$ 300 são R$ 120. R$ 300 − R$ 120 − R$ 60 − R$ 90 = R$ 30.

Compare os serviços pela sobra por hora

Um serviço longo bloqueia a agenda. Enquanto a progressiva ocupa três horas, a cadeira poderia ter feito quatro escovas. Por isso, compare os serviços pelo que sobra em cada hora de cadeira, não pelo que sobra em cada atendimento. Uma escova de 45 minutos a R$ 60, com R$ 4 de produto, no mesmo salão:

Serviço Preço Comissão (40%) Produto Tempo de cadeira Sobra Sobra por hora
Escova (45 min) R$ 60 R$ 24 R$ 4 R$ 22,50 R$ 9,50 R$ 12,67
Progressiva (3 h) R$ 250 R$ 100 R$ 60 R$ 90 R$ 0 R$ 0
Progressiva (3 h) R$ 300 R$ 120 R$ 60 R$ 90 R$ 30 R$ 10

Mesmo a R$ 300, a progressiva rende menos por hora do que a escova. Para empatar com os R$ 12,67 por hora da escova, ela precisaria deixar R$ 38 em três horas: (R$ 60 + R$ 90 + R$ 38) ÷ 0,60 = R$ 313,33. Você não precisa cobrar exatamente isso, mas precisa saber que, abaixo disso, cada progressiva tira o lugar de serviços que deixam mais.

Duas dicas que valem para o salão:

  • Preço por comprimento. Cabelo longo gasta mais produto e mais tempo. Uma tabela com curto, médio e longo deixa a conta certa em cada cliente.
  • Produto por serviço, não por pote. Descubra quantas aplicações sai de cada pote e divida o preço. É esse valor que entra na conta.

Quando o preço não é por serviço: combo, clube e comissão

A mesma conta resolve os casos mais complicados:

Como subir o preço sem perder cliente

Feita a conta, muita gente descobre que precisa subir o preço e trava. Algumas regras deixam a mudança tranquila:

  • Avise antes. Duas a quatro semanas de aviso tiram a surpresa. O cliente que chega e descobre o preço novo na hora de pagar é o que reclama.
  • Mude em todo lugar no mesmo dia. Tabela da parede, Instagram, página de agendamento e mensagem pronta do WhatsApp. Preço diferente em cada canto parece confusão.
  • Suba um pouco e com frequência. Um ajuste pequeno quando o custo sobe pesa menos do que um salto grande depois de anos parado.
  • Não peça desculpa. Você não precisa justificar o preço. Agradecer a preferência basta.
  • Ofereça uma saída. Para quem acha caro, um plano do clube ou um horário de menos movimento pode ser a opção.
Para copiar · Aviso de preço novo
Oi, {nome}! Passando para avisar que, a partir de {data}, a nossa tabela muda:
{serviço}: R$ {valor}
{serviço}: R$ {valor}
Até lá, vale o preço de hoje, inclusive para quem já marcou. Obrigado por estar sempre com a gente!

A conta de bolso para os seus serviços

Copie e preencha uma vez para cada serviço. Leva dez minutos e responde de vez se o preço de hoje paga a conta.

Para copiar · Conta do preço de um serviço
Custo fixo do mês: R$ {___}
Horas vendidas no mês: {___} h
Hora de cadeira (custo fixo ÷ horas vendidas): R$ {___}
Tempo do serviço: {___} min → tempo de cadeira: R$ {___}
Produto por atendimento: R$ {___}
Comissão: {___}% (some a taxa do cartão, se quiser incluir)
Sobra que eu quero por atendimento: R$ {___}
Preço mínimo = (produto + tempo de cadeira + sobra) ÷ (1 − comissão)

Refaça a conta sempre que um custo fixo mudar (aluguel novo, contrato de energia, um funcionário a mais) e quando a ocupação da agenda subir ou cair. A conta de hoje não vale para sempre.

Acompanhando os números sem planilha

No Marca e Vem, cada serviço tem a sua duração, o seu preço e, se você quiser, uma comissão própria; sem ela, vale a comissão do profissional. O caixa do dia soma o que entrou por forma de pagamento e mostra a comissão de cada profissional. Em Relatórios, a Ocupação mostra as horas de expediente, as horas marcadas e a ocupação de cada profissional, que é o número que entra na conta da hora de cadeira. O Faturamento por serviço mostra a quantidade e quanto cada serviço trouxe no período, e qualquer relatório sai em CSV para abrir no Excel.

Perguntas frequentes

Como calcular a hora de cadeira?

Some todos os custos fixos do mês (aluguel, luz, água, internet, contador, sistemas, limpeza) e divida pelas horas que a agenda fica marcada no mês. Com R$ 4.000 de custo fixo e 160 horas vendidas, a hora de cadeira é R$ 25. Se a agenda não fica cheia, divida pelas horas vendidas, não pelas horas abertas.

Devo cobrar o mesmo preço da concorrência?

Use o preço da concorrência como teto, não como base. A sua conta diz o mínimo que você pode cobrar sem perder dinheiro. Se o seu mínimo ficar acima do preço da região, olhe primeiro para o custo fixo e para as horas vazias da agenda.

Quanto deve sobrar em cada serviço?

Não existe um número certo para todo mundo. A sobra é o que paga o seu lucro, as reformas e os meses fracos. Comece decidindo quanto você quer ganhar no mês, divida pelo número de atendimentos e use esse valor na fórmula.

E se eu mesmo corto e não pago comissão?

Coloque a comissão na conta mesmo assim. Ela é o pagamento do seu trabalho na cadeira. Sem ela, a conta esconde o seu salário dentro da sobra, e o preço parece mais folgado do que é.

De quanto em quanto tempo devo revisar o preço?

Sempre que um custo fixo mudar ou a ocupação da agenda subir ou cair bastante. Fora isso, refazer a conta a cada seis meses evita o salto grande de quem passou anos sem mexer na tabela.

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